terça-feira, 30 de outubro de 2012

A excomunhão é um procedimento bíblico?



     O Dicionário Michaelis define excomungar como “separar da comunhão” e “isolar da comunidade”. Em consonância com isso, The International Standard Bible Encyclopedia afirma: “A excomunhão no sentido mais amplo é o ato deliberado pelo qual um grupo nega os privilégios de sua confraria a membros outrora em boa posição. . . . A excomunhão passou à era cristã referindo-se a um ato de exclusão por meio do qual uma comunidade religiosa nega aos infratores os sacramentos, a participação na adoração congregacional e, possivelmente, o convívio social de qualquer espécie.” As  Testemunhas de Jeová usam o termo “desassociação” em lugar de excomunhão.

     No entanto, o procedimento da excomunhão (ou desassociação) tem se tornado cada vez mais raro nas religiões professamente cristãs. De modo que isso leva pessoas sinceras a se perguntar se tal proceder é realmente bíblico. Afinal, o que a Bíblia tem a dizer sobre a excomunhão?

Uma doutrina bíblica

     Quando estava sob o arranjo do pacto da Lei, Jesus Cristo explanou como tratar um pecador irredutível, dizendo: “Se [ele] não escutar nem mesmo a congregação, seja ele para ti apenas como homem das nações e como cobrador de impostos.” (Mt 18:17) Os judeus evitavam associação social e espiritual com os ‘homens das nações’, como é evidente de textos tais como João 18:28; Atos 10:28 e 11:3. Esse procedimento foi ademais incorporado no cristianismo. O apóstolo Paulo traçou, por inspiração, as diretrizes sobre a desassociação, nestas palavras: “Eu vos escrevo agora para que cesseis de ter convivência com qualquer que se chame irmão, que for fornicador, ou ganancioso, ou idólatra, ou injuriador, ou beberrão, ou extorsor, nem sequer comendo com tal homem. … ‘Removei o homem iníquo de entre vós.’” – 1 Cor. 5:11, 13b.

     Porém, isso não significa que, quando um cristão incorre em pecado grave, como os mencionados acima, ele seja automaticamente excomungado, ou desassociado. Notamos isso pelas palavras de Tito 3:10: “Quanto ao homem que promove uma seita, rejeita-o depois da primeira e da segunda admoestação.” Assim, em harmonia com essa diretriz, os anciãos da congregação procurarão primeiro prestar ajuda ao transgressor. É a atitude empedernida e irredutível do transgressor que leva à sua desassociação.

Como tratar os excomungados e os motivos disso

    Paulo usou a expressão “cesseis de ter convivência … nem sequer comendo com tal homem”. (1Co 5:11) O verbo traduzido por “ter convivência” é συναναμίγνυμι (synanamígnymi), e tem sido definido pelos léxicos do grego bíblico como “misturar-se junto com”, “manter companhia com”, “ter intimidade com”, “unir-se ou associar-se com”.  Ele ocorre apenas em 1 Coríntios 5:9, 11 e 2 Tessalonicenses 3:14. O uso desse verbo em 2 Tessalonicenses 3:14 ajuda a esclarecer o sentido desse mesmo verbo em 1 Coríntios 5:11.

     2 Tessalonicenses 3:14 declara: “Mas, se alguém não for obediente à nossa palavra por intermédio desta carta, tomai nota de tal, parai de associar-vos com ele, para que fique envergonhado.” A expressão “parai de associar-vos com” inclui o verbo synanamígnymi. Para entendermos a abrangência desse corte na associação, temos o esclarecimento do versículo seguinte: “Contudo, não o considereis como inimigo, mas continuai a admoestá-lo como irmão.” (2Te 3:15) Portanto, nesse caso específico, de ‘tomar nota’, mantém-se a associação espiritual com o referido desobediente. Assim, a restrição quanto à associação tem que ver com o contato social.

     Já no caso da excomunhão, o corte da associação significa cortar o contato social e também o espiritual. A ordem “removei o homem iníquo de entre vós” significa evidentemente que tal homem (ou mulher) deixa de ser parte da comunidade cristã. (1Co 5:13b) Alguns excomungados se tornam ativistas e militantes contra a comunidade cristã, da qual foram expulsos. A respeito desses, o apóstolo João escreveu: “Todo aquele que se adianta e não permanece no ensino do Cristo não tem Deus. Quem permanece neste ensino é quem tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém se chegar a vós e não trouxer este ensino, nunca o recebais nos vossos lares, nem o cumprimenteis. Pois, quem o cumprimenta é partícipe das suas obras iníquas.” – 2Jo 9-11.

     Mas qual é o objetivo dessa ação disciplinar? Um dos motivos é descrito por Paulo no contexto de 1 Coríntios, capítulo 5: “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Retirai o velho fermento, para que sejais massa nova, conforme estiverdes livres do levedo.” (1Co 5:6b, 7a) Portanto, o princípio biológico de que algo podre estraga os demais alimentos ao redor também se aplica no campo moral e espiritual. Um pouco antes no mesmo capítulo Paulo ordenou: “Entregueis tal homem a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.” (1Co 5:5) Conforme mostrado pelo texto, a excomunhão (desassociação) resulta na remoção (“destruição”) da influência corrompedora (a “carne”, ou elemento carnal), preservando assim o “espírito” – a atitude dominante de boa condição espiritual – da congregação. (2Ti 4:22) Dessa forma, o espírito de Deus – sua força ativa – é mantida na comunidade cristã, e tal comunidade, que leva o nome de Deus, Jeová, permanece como fiel representante Dele. – At 15:14.

     Outro motivo tem a ver com o princípio da responsabilidade comunal – o princípio de que a tolerância deliberada de um mal dentro de uma comunidade incide na culpa da inteira comunidade. Vemos exemplos da aplicação desse princípio em diversas passagens bíblicas. Em seu discurso aos judeus e prosélitos presentes no Pentecostes de 33 EC, o apóstolo Pedro apontou a responsabilidade comunal que incorria sobre a nação judaica, usando a expressão “Jesus, a quem pregastes numa estaca.” (At 2:36) Mesmo pessoas que não haviam participado diretamente na morte de Cristo tinham culpa por causa responsabilidade comunal, quer por aceitação quer por omissão em relação ao ocorrido. Veja outro exemplo da responsabilidade comunal no relato de 2 Samuel 20:1, 15-22. Assim, por se remover transgressores impenitentes da comunidade cristã, os demais membros dessa comunidade mantêm sua aprovação perante Deus.

     Outra razão da excomunhão está relacionada com a recuperação do próprio transgressor. Foi o que ocorreu com o transgressor tratado na primeira carta de Paulo aos coríntios, capítulo 5. A respeito do excomungado já arrependido, Paulo escreveu em sua segunda carta aos coríntios: “Esta censura [a excomunhão] da parte da maioria é suficiente para tal homem, de modo que agora, ao contrário, deveis perdoar-lhe bondosamente e deveis consolá-lo, para que tal homem não seja de algum modo tragado pela sua excessiva tristeza. Exorto-vos, portanto, a que confirmeis o vosso amor por ele. … Para que não sejamos sobrepujados por Satanás.” (2Co 2:6-8, 11a) Uma vez que tal homem mudou seu comportamento, ele podia ser reintegrado à comunidade cristã. Paulo mostrou que deixar de readmiti-lo seria uma demonstração de insensibilidade e injustiça da parte da comunidade cristã, levando-os a serem “sobrepujados por Satanás” e a cair no desfavor de Deus.

A responsabilidade que recai sobre os dirigentes da congregação

     Os registros inspirados mostram um exemplo, no fim do primeiro século EC, da má aplicação e do abuso da prática bíblica da excomunhão, ou desassociação. Lemos em 3 João 9, 10: “Escrevi algo à congregação, mas Diótrefes, que gosta de ocupar o primeiro lugar entre eles, não recebe nada de nós com respeito. É por isso que, se eu for aí, farei lembrar as obras dele, que ele prossegue fazendo, parolando acerca de nós com palavras iníquas. Também, não contente com estas coisas, nem ele mesmo recebe os irmãos com respeito, e, os que querem recebê-los, ele procura impedir e lançar fora [excomungar] da congregação.” A expressão “ele procura impedir e lançar fora” no texto grego literal é:  “Ele está impedindo e está lançando fora [desassociando].” Ambos os verbos – “impedir” (kolúo) e “lançar fora” (ou “expulsar” = ekbállo) estão no presente do indicativo, descrevendo uma ação em andamento, que de fato estava sendo executada.

     Essa trágica situação que existia naquele tempo salienta a pesada responsabilidade que repousa sobre os que têm a autoridade e jurisdição de julgar e decidir sobre excomungar ou manter um suposto transgressor na congregação cristã. (Tg 3:1; Lu 12:48b) Um erro no julgamento constituiria uma grande injustiça, colocando os envolvidos na decisão numa condição altamente desfavorável perante Deus e na certeza de se tornarem alvo da execução de Seu julgamento condenatório.  – Ro 14:12; He 4:13; Jó 31:14.

    Por outro lado, quando exercida de forma justa, em harmonia com os padrões do cristianismo, a excomunhão (desassociação) é tanto correta como necessária, a fim de manter a pureza moral e espiritual na comunidade cristã e, acima de tudo, para essa comunidade estar à altura do Deus Santo, o Todo-poderoso e Soberano Senhor Jeová, que declarou: “Tendes de ser santos, porque eu sou santo.” – 1Pe 1:16; Le 20:26.


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sábado, 27 de outubro de 2012

A origem ou o princípio “da criação de Deus”? – Re 3:14


Em Revelação (Apocalipse) 3:14, o Filho é chamado “o princípio da criação de Deus” (Al, ALA, IBB, So, BMD, LEB; NTR, NM, JRV e outras)  “a origem de tudo o que Deus criou” (BLH) ou “o princípio das criaturas de Deus”. (MC) Os trinitaristas interpretam a expressão grega usada em Revelação 3:14 para “o princípio da criação de Deus” como significando “a origem (ou ‘fonte primária’) da criação de Deus”. Adotam a ideia de que se quer dizer que o Filho era ‘o principiador da criação de Deus’, que ele era a sua ‘fonte real’, o Príncipe ou Cabeça da criação. Muitos argumentam que isto significa que o Filho foi o Originador ou Autor da criação. 
Em primeiro lugar, não é isto o que o texto está dizendo.
Não é isto o que está escrito. O texto não usa a palavra “principiador”, “originador” ou “autor” da criação. Dizer que “princípio” significa “principiador” seria o mesmo que dizer que “construção” significa “construtor” – uma afirmação absurda! O fato de as traduções usarem a palavra “princípio” ao invés de “principiador” é outra evidência positiva de que esta é a tradução correta.
Segundo, a palavra grega usada significa “princípio” e não “principiador”.
No idioma em que João escreveu o livro de Revelação, a palavra grega é arkhé. Esta palavra ocorre 58 vezes no texto grego da Versão Autorizada ou Rei Jaime, inglesa, mas nunca foi traduzida como ‘iniciador’ ou ‘originador’. Em todos os escritos bíblicos do apóstolo João (um Evangelho, três cartas e a Revelação), ele usa a palavra grega arkhé  23 vezes, e sempre no sentido de “princípio”. Só na Revelação ele usa esta palavra grega 4 vezes, e em três casos, João a coloca em oposição ao “fim”. (Re 1:8; 21:6; 22:13, Al) Por isso não é coerente pensar-se que em Revelação (Apocalipse) 3:14 o apóstolo João mude o significado de arkhé de “princípio” para ‘iniciador’ ou ‘originador’.
O Greek-English Lexicon, de Liddell e Scott, alista “princípio” como o primeiro sentido de ar·khé. (Oxford, Inglaterra, 1968, p. 252) De acordo com The Expositor’s Greek Testament (O Testamento Grego do Expositor), para se compreender Revelação 3:14 como significando que Jesus é “a fonte ativa” da criação ao invés de ser a primeira pessoa criada, a pessoa precisaria interpretar arkhé “como na filosofia grega e na literatura de sabedoria judaica [não bíblica], = aitía ou origem”. Os inspirados escritores bíblicos, contudo, jamais tomaram idéias emprestadas da filosofia grega.
Até mesmo alguns trinitaristas admitem isso
 O teólogo Albert Barnes diz a respeito da palavra grega ar·khé: “A palavra refere corretamente ao começo duma coisa, não à sua autoria, e indica corretamente primazia no tempo e primazia na categoria, mas não primazia no sentido de causar que algo viesse a existir. . . . Portanto, a palavra não é encontrada no sentido de autoria, como indicando que alguém é o princípio de alguma coisa no sentido de que fez com que viesse à existência.” — Barnes’ Notes of the New Testament, p. 1569.
Um que prefere a teoria do ‘principiador’ é o famoso perito grego Henry Alford. Todavia, em sua obra The Greek Testament (O Testamento Grego), Alford reconhece: “A mera palavra arkhé admitiria o significado de que Cristo é o primeiro ser criado: veja Gên. [49:]3; Deu. [21:]17; e Pro. [8:]22. E, assim os arianos o consideram aqui, e alguns que os têm seguido: por ex., Castálio, ‘uma obra-prima’: ‘omninm Dei operum excellentíssimum atque primom’: [significando “a primeira e a mais excelente de todas as obras de Deus”], assim como Ewald e ZüllIg.”
    Outros textos corroboram que Jesus Cristo é o “princípio” de todas as criações feitas por Deus
Jesus sempre falou de si mesmo como o Filho de Deus, o que prova que ele recebeu a vida de Deus, como seu Pai celestial. (Jo 10:36; 3:16; 5:26) Encarado do ponto de vista linguístico, o mero fato de que Jesus é o “Filho de Deus” indica um princípio, assim como o filho sempre é mais jovem do que seu pai. Quanto ao Pai, ele sempre existiu. A respeito Dele diz o salmista inspirado: “De tempo indefinido a tempo indefinido, tu és Deus.” (Sal 90:2) Não se pode dizer o mesmo a respeito do Filho, visto que esse termo indica algo diferente.
Em Colossenses 1:15, 18 (Al) está escrito, também, que ele “é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. E ele é a cabeça do corpo da igreja: é o princípio [arkhé] e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência”. Ser ele o “primogênito dentre os mortos” significa que ele mesmo esteve certa vez morto, e ser ele o “primogênito de toda a criação” significa que ele mesmo foi criado pelo seu Pai celestial. (Re 1:5, 17, 18; At 2:22-32) Alguns argumentam que “primogênito” aqui apenas significa que Jesus é o principal e não que realmente tivesse nascido. Mas, ainda assim, uma vez que ele é o primeiro ou principal da criação, então foi criado e teve princípio!
Note quão de perto essas referências à origem de Jesus se correlacionam com expressões feitas pela “Sabedoria” figurativa no livro bíblico de Provérbios: “Iahweh me criou, primícias de sua obra, antes de seus feitos mais antigos. Antes que as montanhas fossem implantadas, antes das colinas, eu fui gerada; ainda não havia feito a terra e a erva, nem os primeiros elementos do mundo.” (Pr 8:12, 22, 25, 26, BJ) Muitos comentaristas concordam que se faz referência ao Filho como sabedoria personificada, que se trata realmente de uma figura de linguagem que se refere a Jesus na sua condição de criatura espiritual anterior à sua existência qual humano. Nas traduções IBB, BMD e BJ, diz-se que aquele que fala ali foi “criado”.
Não é a Jesus Cristo, mas a Deus que o apóstolo Pedro aplica o título “Criador” (Ktístes; KtisthV) em 1 Pedro 4:19. Esta é o único texto em que ocorre este título nas Escrituras Gregas Cristãs. As criaturas no céu atribuem o ato da criação “Ao que está sentado no trono, Aquele que vive para todo o sempre”. (Re 4:9-11) Jesus não é ‘O que está sentado no trono’, mas sim o “Cordeiro”. (Re 5:1, 6-7, 13; 7:9, 10; 10:5, 6) O próprio Jesus reconheceu que ele não era o Criador, mas sim o seu Pai. – Mt 19:4-6.
Tomando-se tudo isso em conta, a própria Bíblia torna claro que Jesus Cristo, o Filho de Deus, não é o Criador, mas que o Deus Todo-poderoso, o Criador, cujo nome é Jeová, usou seu Filho unigênito como seu instrumento na criação de todas as outras criaturas ou criações. (Jo 1:1-3; Ef 2:10, 15; 3:9; Col 1:16, 17; Re 19:13) Jesus Cristo é a mais antiga das criaturas de Deus, pois ele é o princípio da criação de Deus. A conclusão lógica é que aquele citado em Revelação 3:14 é uma criação, a primeira das criações de Deus, e teve princípio.


Traduções da Bíblia citadas neste artigo:

Al – Almeida Revista e Corrigida.
ALA – Almeida Atualizada.
BMD – Bíblia Mensagem de Deus.
IBB – Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
JRV – Bíblia Sagrada, Evangelhos (1982), José Raimundo Vidigal, Editora Santuário.
LEB – Liga de Estudos Bíblicos.So Bíblia Sagrada (1980), Matos Soares, Edições Paulinas.
NM – Tradução do Novo Mundo, das Testemunhas de Jeová.
NTR – Revisão do Novo Testamento pela Imprensa Bíblica Brasileira




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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

“Por intermédio de [Deus]” – o que essa expressão significa?


“Porque era próprio que aquele [Deus], para quem são todas as coisas e por intermédio de quem são todas as coisas, trazendo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por sofrimentos o Agente Principal [Jesus] da salvação deles.” Hebreus 2:10.

       As Escrituras são claras em mostrar que Jeová, o Deus Todo-Poderoso e Criador, criou primeiro Seu Filho, o Logos, que se tornou o nosso Senhor Jesus Cristo; e, por meio deste, criou “todas as outras coisas”. (Col. 1:15, 16)[1] Isso pode ser comprovado pelo que diz Hebreus 1:2: “No fim destes dias nos falou por intermédio dum Filho, a quem designou herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez os sistemas de coisas [“o universo”, NVI].”

      No entanto, numa tentativa de contestar essa clara verdade, alguns trinitaristas usam o texto de João 1:3, que declara: “Todas as coisas vieram à existência por intermédio dele [Jesus], e à parte dele nem mesmo uma só coisa veio à existência.” Com base nesse versículo, argumentam: ‘Se todas as coisas que “vieram a existir” dependeram de Cristo para sua existência, Ele mesmo não pode ter “vindo a existir.”’ 

Quem é o Criador?

       João 1:3 usa a mesma expressão de Colossenses 1:16, a saber, di autoû (“por intermédio dele”). Embora a NM não traduza por “todas as [outras] coisas”, esse evidentemente é o sentido, com base no inteiro contexto bíblico. Ou seja, todas as demais coisas “vieram à existência por intermédio” do Filho, uma vez que o Filho veio à existência pela ação direta do Pai, Jeová Deus. Provérbios 8:22-30 fala alegoricamente do Filho como sendo a “sabedoria” de Deus. (Veja 1 Coríntios 1:24.) No versículo 22 o Filho declara: "Iahweh me criou, primícias de sua obra ... DESDE O PRINCÍPIO." (BJ) A tradução inglesa do rabino Isaac Leeser (1853) diz: “O Senhor criou-me NO PRINCÍPIO do seu caminho, a primeira de suas obras.”[2] Ademais, o fato de ele ser referido como “Filho” mostra que teve princípio.  (He 1:2) Permanece sempre inviolável a regra de 1 Coríntios 8:6: “Para nós há realmente um só Deus, o Pai, DE QUEM procedem todas as coisas, e nós para ele; e há um só Senhor, Jesus Cristo, POR INTERMÉDIO DE QUEM são todas as coisas, e nós por intermédio dele.” – Veja o artigo “Duas regras – uma falsa e uma verdadeira”, neste blog, no link http://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2011/09/duas-regras-uma-falsa-e-uma-verdadeira.html.

       O próprio Jesus Cristo se referiu a seu Pai como sendo o único Criador, quando disse: “Não lestes que aquele que os criou desde o princípio os fez macho e fêmea …?” (Mt 19:4) Note que Jesus não disse: “Aqueles que os criaram.” Portanto, “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” é o único Criador, conforme atestado por diversos textos bíblicos. – Is 40:28; 42:5; 43:1, 15; 45:18; Am 4:13; 1Pe 4:19; 2Co 1:3.

       Mas os trinitários, numa tentativa adicional de tentar identificar Jesus com Jeová no papel de Criador, citam Isaías 44:24, onde Jeová declarou: “Eu, Jeová, faço tudo, estendendo os céus por mim mesmo, estirando a terra. Quem estava comigo?” Uma vez que essa pergunta subentende uma resposta negativa – “ninguém” –, os trinitários alegam que Jeová Deus criou as coisas sozinho, sem a participação do Logos (Jesus na sua existência pré-humana). Uma vez que algumas passagens descrevem a participação de Jesus na criação, os trinitários sustentam que Jesus é o mesmo ser que Jeová, o Criador do Universo. (Jo 1:3; Col. 1:15, 16; He 1:2) No entanto, essa argumentação em torno de Isaías 44:24 desconsidera o contexto. O contexto contrasta Jeová com os deuses falsos das nações pagãs. (Is 43:12; 44:14-20) A passagem não diz respeito a Jesus na sua existência pré-humana, que, conforme o inteiro contexto bíblico mostra, participou com Jeová na criação. – Gn 1:26; Pr 8:22-30.

       Obviamente, o Deus Supremo não precisava usar Seu Filho na criação de todas as outras coisas. No entanto, ele se agrada de usar suas criaturas na realização de Seus propósitos.

Termos semelhantes não provam a mesma identidade

       Também, os proponentes da Trindade tentam traçar um paralelo entre Romanos 11:36 e Colossenses 1:16. O primeiro texto diz que “todas as coisas são … para ele [Jeová, o Pai]”, ao passo que a segunda passagem afirma que “todas as outras coisas foram criadas por intermédio dele e para ele [Jesus]”. Em ambos os textos a expressão grega que traduz “para ele” é eis autòn. Assim, os trinitários pontuam que essa semelhança textual indicaria que Jeová e Cristo detêm a mesma identidade. Mas, como mostrou o artigo “Duas regras – uma falsa e uma verdadeira” (neste blog), o mesmo título ou a mesma expressão usada para dois seres não prova, em si mesmo, que tais seres tenham a mesma identidade.

       O contexto bíblico esclarece o sentido dos dois textos em questão. “Todas as coisas são … para ele [Jeová]” por ser ele o Criador de todas as coisas, sendo que, por isso, tudo lhe pertence. (Ro 11:36; Re 4:11; Sal 24:1; 50:10) No caso de Cristo, “todas as outras coisas foram criadas… para ele”, porque Deus o “designou HERDEIRO de todas as coisas”. (He 1:2) Alguém só herda o que não possui. Como explicado em João 3:35, “o Pai ama o Filho e TEM ENTREGUE todas as coisas na sua mão.”

“Por intermédio de [Deus]” – indica igualdade com o Filho?

       Não conseguindo estabelecer que o Filho seja o Criador, os trinitários tentam traçar outro caminho. Salientam que a expressão “por intermédio dele” (em grego: di autoû) aplicada a Jesus em Colossenses 1:16, também é usada para Deus, o Pai, em Romanos 11:36. Entretanto, o argumento de que a expressão di autoû aplicada a Deus, o Pai, torna o Filho coigual a ele mostra desconhecimento do grego bíblico. Di é uma apócope de diá, que significa “por”, “por intermédio [ou: através] de”, “com”, e “por causa de”. Por conseguinte, além de denotar o meio, ou instrumento intermediário, de uma ação, essa preposição também tem o sentido de CAUSA. Veja os exemplos abaixo:

Mateus 10:22: “E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa DO [diá]  meu nome.”

Atos 21:34: “Mas alguns da multidão começaram a gritar uma coisa e outros outra. Assim, não podendo por si mesmo saber nada de certo, por causa do [diá] tumulto, mandou que fosse levado ao quartel.”

Mateus 27:18: “Pois ele se apercebia de que o tinham entregado por [diá] inveja.”

João 7:13: “Ninguém, naturalmente, falava dele publicamente, por causa do [diá] temor dos judeus.”

       O fato de os exemplos acima usarem diá com o acusativo, ao passo que Romanos 11:36 e Hebreus 2:10 usam tal preposição com o genitivo, não é relevante. Pois, segundo o Léxico Grego-Português de Gingrich e Danker (1993), o sentido de CAUSA também é usado com o genitivo. O referido léxico cita para isso os exemplos abaixo:

Romanos 3:20: “Pela [diá; ou: por causa da] lei vem o conhecimento exato do pecado.”

Romanos 7:5: “Pois, quando estávamos de acordo com a carne, as paixões pecaminosas, incitadas pela [diá] Lei, trabalhavam em nossos membros para que produzíssemos fruto para a morte.” O texto não significa que as “paixões pecaminosas” usaram a “Lei” como instrumento intermediário a fim de gerar “fruto para a morte”, e sim que, EM RAZÃO – ou POR CAUSA – da existência da Lei, que definiu plenamente o pecado, as “paixões pecaminosas” foram claramente manifestadas em todos os seus ângulos e matizes, sendo, desta forma, “incitadas”.

       Diá písteos (“por intermédio da fé”; com genitivo) é equiparado a  ek písteos (‘por causa da fé’; com genitivo), mostrando contextualmente que diá com genitivo também pode ter o sentido de CAUSA. (Gál. 2:16) Assim, diá com genitivo e com acusativo, embora estejam em situação gramatical diferente, semanticamente podem ser iguais, tendo o mesmo sentido. Isso pode ser definitivamente demonstrado pelo texto abaixo:

       2 Coríntios 8:8: “Não é como se fôsseis mandados, mas em vista da seriedade dos outros e para fazer uma prova da genuinidade do vosso amor é que eu estou falando.” Os “outros” a quem Paulo se refere eram os cristãos macedônios, os quais, embora materialmente pobres, deram exemplo em ajudar materialmente seus concristãos em necessidade. (2Co 8:1-7) Portanto, “em vista [ou: em razão; por causa; diá] da seriedade [spoudês]”, ou diligencia, dos cristãos macedônios, os cristãos de Corinto, a quem Paulo escreveu essa carta, deveriam repensar em que ponto estava a sua generosidade. Os cristãos coríntios não deveriam ajudar materialmente “pela [ou: “mediante”]” a diligência, ou zelo, dos cristãos macedônios (Al, ALA, ACRF, IBB), mas sim POR CAUSA do exemplo deles. Neste texto, diá ocorre com genitivo no sentido de CAUSA. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje corrobora isso: “Não estou querendo mandar em vocês. O que eu estou querendo é que conheçam o entusiasmo com que as igrejas da Macedônia deram ofertas, para que assim vocês vejam se o amor de vocês é verdadeiro ou não.”

       Com base na definição dos léxicos, e tendo em vista o uso de diá no texto grego do “Novo Testamento”, bem como levando em conta o inteiro contexto bíblico, segue-se que, quando a preposição diá – mesmo que traduzida como “por intermédio de” – é aplicada a Jeová, isto não o torna instrumento ou agente de outra pessoa, mas é usada no sentido de Ele ser a CAUSA, ORIGEM ou RAZÃO de alguma coisa, que é outro sentido de diá, conforme mostrado acima. Hebreus 2:10 atribui a Jeová a CAUSA ou RAZÃO da existência de todas as coisas. Deus não é intermediário de outra pessoa. 1 Coríntios 1:9 afirma que a chamada celestial é feita por intermédio [diá] de Deus, mas é o próprio Deus quem faz a chamada; ele não é agente de outrem. Ele é a CAUSA ou ORIGEM da chamada. No caso de Jesus é diferente. Ele atua como agente, ou instrumento, de outra pessoa, que é seu Deus e Pai. Deus faz coisas “por intermédio” dele. – Ro 2:16; Ju 25.

Abreviatura das traduções usadas neste artigo:

ACRF Almeida Corrigida e Revisada Fiel.
Al Almeida Revista e Corrigida.
ALA Almeida Atualizada.
BJ – Bíblia de Jerusalém.
IBB Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
NM – Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.
NVI – Nova Versão Internacional.


[1] Veja o artigo “Jesus é o Criador ou um Ser criado? – Exame de Colossenses 1:15-20”, neste blog, no link http://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2012/09/jesus-e-o-criador-ou-um-ser-criado.html


[2] Algumas palavras de certos versículos bíblicos foram colocadas em maiúsculo para salientar o ponto a ser destacado.



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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A PAROUSIA DE CRISTO – PARTE 2


A PRESENÇA DE CRISTO É INVISÍVEL

Jesus disse que “o reino de Deus não vem de modo impressionantemente observável”. (Lu 17:20) Diria que um ser em forma humana sentado num trono, com anjos em forma humana em volta tocando trombetas não seria algo “impressionantemente observável”? Outra evidência de que a presença de Cristo seria invisível é o fato de que, de início, apenas os observadores bem atentos, de figurativos olhos de águia, o notariam. (Lu 17:37) Como, então, podemos determinar quando estaria próximo o Reino?
A resposta a esta pergunta nos leva a outra razão pela qual a presença de Cristo seria invisível: ele forneceu um sinal visível. Pense nisso: se a pa·rou·sí·a fosse literalmente visível aos olhos humanos, por que Jesus despendeu tanto tempo dando a seus seguidores um sinal para ajudá-los a discernir essa presença? Ter-se dado um sinal da presença indica que ela é secreta. Não precisamos de um sinal que nos informe a presença daquilo que vemos.
Jesus permaneceria invisível, mesmo ao manifestar sua presença executando a sentença contra os iníquos. Jesus disse a seus discípulos: “Mais um pouco, e o mundo não me observará mais” [“não me verá mais”, Als]. (Jo 14:19) A palavra usada é theoreís, derivada de theoréo (θεωρέω, “ver, olhar, observar”; G. D.). Seus discípulos o observariam porque, no devido tempo, eles seriam ressuscitados para juntar-se a ele nos céus e ‘observar a glória que seu Pai lhe dera’. (Jo 17:24; 1Jo 3:2) Que uma pa·rou·sí·a pode também ser invisível é indicado pelo uso que Paulo fez da forma verbal aparentada (pá·rei·mi;  declinada como parón) ao falar de estar “presente em espírito” (parón toi pneúmati), embora ausente em corpo (apón toi sómati). (1Co 5:3) Também a Bíblia fala da “manifestação de sua presença” (epifâneiai tes parousias autoû) e relaciona isso com o tempo em que Jesus executará os iníquos. (2Te 2:8) Uma vez que a presença de Cristo terá de ser manifestada, revelada, isso indica que ela é obviamente invisível.
Que Jesus não voltará num corpo físico é claro pelo testemunho das Escrituras. (Jo 6:51) Tendo renunciado à sua vida carnal a favor da vida do mundo, ele não podia tomá-la novamente de volta. Caso tivesse tomado de volta o corpo humano que sacrificara, a humanidade não mais seria resgatada e nem ele poderia retornar ao céu. (1Co 15:50; 1Pe 3:18; 2Co 5:16) Ademais, se Cristo retomasse seu corpo carnal, ele teria de oferecê-lo novamente, para pagar nossos pecados. No entanto, Hebreus 10:10 torna claro que a “oferta do corpo de Jesus Cristo” foi feita “uma vez para sempre”. A respeito do glorificado e imortal Senhor Jesus Cristo, 1 Timóteo 6:16 afirma que ele é alguém que “mora em luz inacessível, a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver”. Sendo esse o caso, Jesus nunca assumirá de novo um corpo corruptível de carne a fim de ser visto pelos humanos que são frágeis demais para suportar a visão de seu corpo espiritual glorificado. Esse não é o propósito de Deus para seu Filho. Como disse o inspirado apóstolo Paulo em certa ocasião: “[Deus] o ressuscitou dentre os mortos, destinado a nunca mais voltar à corrupção.” — At 13:34.
Ter Jesus simplesmente assumido forma humana após sua ressurreição explica por que, em várias ocasiões, não foi sempre reconhecido de imediato e também por que podia surgir de súbito no meio de seus apóstolos, mesmo a portas fechadas. – Jo 20:19, 26.
Depois que ascendeu ao céu, Jesus tornou-se “a representação exata” do próprio ser de Deus. (He 1:2, 3) Assim, ele se tornou um ser espiritual, assim como “Deus é Espírito”. (Jo 4:24) Nenhum homem poderia ver a face gloriosa de Deus e ainda assim viver. (Êx 33:20) E a presença de Deus não se dava de forma visível. (Êx 19:9, 11, 18, 20; 25:22) Do mesmo modo, os humanos não podem na Terra ver o glorificado Senhor Jesus Cristo. É por isso que, quando Saulo de Tarso (a caminho de perseguir os cristãos em Damasco) encontrou Jesus Cristo, não viu nenhuma forma ou corpo, mas apenas uma luz tão brilhante que o cegou. (At 9:3-9, 17, 27; 22:6-9, 11; 26:13, 16) A Bíblia diz que Deus é o “Pai das luzes celestiais”. (Tg 1:17) De modo similar, o ressuscitado Jesus “mora em luz inacessível, a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver”. – 1Tim 6:14-16.
Mas que dizer de Revelação 1:7? Este texto declara: “Eis que ele vem com as nuvens e todo olho o verá, e aqueles que o traspassaram; e todas as tribos da terra baterão em si mesmas de pesar por causa dele.” Devemos tomar isso literalmente? O livro de Revelação é apresentado “em sinais”, ou símbolos. (Re 1:1) Podemos notar a linguagem simbólica por observar que o texto diz que Cristo será ‘visto’ até mesmo por “aqueles que o traspassaram”. Literalmente, foram os soldados romanos que traspassaram Jesus. (Jo 19:23, 32-34) Como poderiam “aqueles que o traspassaram” ver Cristo retornar? Já estão mortos há quase 20 séculos! E a Bíblia apresenta a ressurreição no Reinado milenar de Cristo, após a vinda de Cristo para destruir os ímpios. (Re 20:1-3, 12) Portanto, estas palavras devem ter algum outro significado. O próprio Jesus forneceu a pista na sua parábola das ‘ovelhas e dos cabritos’, quando disse: “Ao ponto que o fizestes a um dos mínimos destes meus irmãos, a mim o fizestes.” (Mt 25:31-46) Portanto, “aqueles que o traspassaram” representam os que hoje maltratam ou ‘traspassam’, por assim dizer, os discípulos de Cristo na Terra. Uma vez que ‘os que o traspassaram’ são um símbolo, isto é, representam os atuais perseguidores dos cristãos, ‘ver’ Cristo vindo nas nuvens também é simbólico. Ademais, a Bíblia associa “nuvens” com invisibilidade, visto que nuvens não contribuem para a visibilidade, como qualquer piloto de avião ou controlador de tráfego aéreo bem o sabe. (Jó 22:14; Êx 19:9; Is 19:1) O fato de a presença de Cristo ser associada ao uso de nuvens em diversos textos ajuda-nos a entender que sua presença tem de ser invisível.
Se Cristo viesse em forma humana, como é que todo olho poderá vê-lo? Se ele for visível na Austrália, então certamente não será simultaneamente visível na Europa e em muitas outras partes da Terra, não importa a que altitude. No entanto, a Bíblia indica que a presença de Cristo terá uma abrangência mundial, será reconhecida mundialmente, e não apenas neste ou naquele local geográfico. – Mt 24:23-25.
Há mais de uma maneira de “ver” algo ou alguém. Numa palestra, quando certo ponto se torna claro, a pessoa talvez diga: “agora eu vejo o ponto”, querendo dizer, “compreendo”. Na Bíblia, ‘ver’ pode referir-se à visão figurativa, à percepção mental e de coração. A palavra grega o’pso.mai (futuro indicativo médio do verbo defectivo ho.ra’o, que significa “ver, notar, perceber” [G. D.]) usado no texto de Revelação 1:7, tem esse como um de seus vários significados. Romanos 1:20, onde ocorre uma forma de ho.ra’o, mostra que algo invisível pode ser ‘visto’ [kathorãtai] por ser ‘percebido’ [nooúmena] pelos olhos mentais. Diversos textos falam da visão e dos olhos em sentido figurado. Na Bíblia, “olho” e “olhos” e “visão” são usados também no sentido de compreensão mental e espiritual. (Gn 3:7; Ec 2:14; Ef 1:18; Is 17:7; Is 44:18; Jo 12:40; Jó 42:5; Sal 119:18; Lu 19:42; Ro 11:8-10; Mt 6:22, 23;13:16; Sal 123:2; Pr 4:20, 21; Jo 9:38-41; Jos 3:3; Is 51:1, 2; Je 5:21; 3Jo 11; At 8:23; Tg 2:24) As palavras “cego” (hebr.: ‛iw·wér e gr.: ty·flós) e “cegueira” são também usadas em sentido figurado. (Mt  23:16; Êx 23:8; De 16:19; Jo 9:39-41; 3:19, 20; Re 3:17; 1Jo 2:11; 2Pe 1:5-9; 2Co 4:4) A Bíblia fala de ‘ver’ coisas abstratas, como a salvação (Als) e a vida. (o’pso.mai; Lu 3:6; Jo 3:36)  Também, “olho” no singular (hebr.: ‛á·yin; gr.: ofthalmós) tem o mesmo sentido de “olhos”, no plural. (Núm 24:3, 15; De 7:16; 28:54; Esd 5:5; Jó 7:8; 14:3; Sal 92:11; 116:8) Assim, o simples fato de que a Bíblia declara que os homens “verão” Jesus quando ele voltar não significa, em si, que o verão com sua visão física, e que ele aparecerá num corpo físico. Pois, como o próprio Jesus disse, “o mundo não me verá mais”. – Jo 14:19, Als.
Entretanto, quando Cristo vier para destruir o sistema mundial de Satanás, a realidade de Sua presença ficará sobrepujantemente manifesta a todos. Será então que “todo olho [do entendimento] o verá”. Mesmo os opositores de Jesus poderão discernir, para seu desalento, que o reinado de Cristo é real. Em sua ‘revelação’, as palavras de Jesus em Mateus 24:30 se cumprirão. Não só os seguidores fiéis de Jesus, mas “todas as tribos da terra” ficarão cônscias do que estará acontecendo então. Observe que não verão o corpo humano do Filho do homem, mas um “sinal”. Um sinal é uma evidência visível de algo invisível. Isto significa que verão evidência visível de que Jesus Cristo deveras exerce autoridade como Rei e que isto significará destruição para aqueles que deixaram de aceitar as “boas novas” que lhes foram declaradas. — 2 Te 1:6-8; 2:8; Re 1:5, 6.
A explicação acima elucida textos tais como Hebreus 9:28, que fala da “segunda vez que ele aparecer” (ὀφθήσεται [ofthésetai], derivado de ὁράω [ho.ra’o]). Outra derivação de horáo (ὤφθη [ófthe]) é encontrada em 1 Coríntios 15:8, onde Paulo declara que Jesus “apareceu” a ele. Mas, como a Bíblia mostra, Paulo não viu nenhuma figura definida. Apenas viu uma forte luz. A mesma derivação (ὤφθη [ófthe]) é usada em Atos 7:2, que declara: “O Deus da glória apareceu (ὤφθη [ófthe]) a nosso antepassado Abraão.” Mas, conforme a Palavra de Deus torna claro, “nenhum homem jamais viu a Deus”. (Jo 1:18a) Assim, o que Abraão deve ter tido foi uma visão de Deus.  — Gn 15:1.

O que indica o texto de Atos 1:9-11? Os anjos disseram que Cristo voltaria “da mesma maneira” como partiu. Note que a volta de Jesus seria “da mesma maneira” (gr.: tró·pos, não mor·fé, “forma”). Bem, como foi que ele partiu? À vista de milhões de pessoas? Não, mas sem demonstração pública, discernida apenas por alguns de seus fiéis seguidores. E quando os anjos lhes falaram, estavam os apóstolos literalmente observando a inteira jornada de Cristo até o céu? Não, uma nuvem havia ocultado Jesus da visão. Algum tempo depois, ele deve ter entrado nos céus espirituais como ser espiritual, invisível a olhos humanos. (1Co 15:50) Portanto, quando muito, os apóstolos viram apenas o começo da jornada de Jesus; não poderiam ver o fim, seu retorno à presença celestial de seu Pai, Jeová. Isso eles poderiam discernir apenas com os olhos da fé. — Jo 20:17.
Como podemos harmonizar o que já foi explicado acima com o texto de 1 Tessalonicenses 4:16, que descreve Jesus como ‘descendo do céu com uma chamada dominante [“alarido”, Al], com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus’? A expressão “chamada dominante” é tradução do  grego  κελεύσματι (keleúsmati), que só ocorre nesse texto, e que é derivado de κελεύω (keleúo), que significa “mandar, comandar, ordenar, urgir”. (G. D.; Mt 8:18;14:19, 28; 18:25; 27:58; Lu 18:40; At 12:19; 25:23) Em harmonia com o sentido original, algumas traduções vertem keleúsmati por “palavra de ordem” (ALA), “ordem de comando” (BLH). Não são corretas traduções como “alarido” (AL) e “grande brado” (IBB), visto que palavras como “grito”. “gritaria”, “clamor” e “brado” são traduções da palavra κραυγή (kraugé), encontrada na sua totalidade em Mateus 25:6; Lucas 1:42; Atos 23:9; Efésios 4:31; Hebreus 5:7; Revelação 21:4. Ademais, o verbo gritar, clamar (em alta voz) é tradução de κραυγάζω (kraugázo) e de κράζω (krázo). Exemplos de kraugázo são encontrados na totalidade em Mateus 12:19; Lucas 4:41; João 11:43; 12:13; 18:40; 19:6, 12, 15; Atos 22:23; e de krázo em Mateus 14:26; 27:50; Marcos 15:14. Mesmo tais verbos têm também sentido figurado. Por exemplo, Tiago 5:4 fala dos salários que foram retidos como estando “clamando” [krázei], o que obviamente não ocorre de modo audível.
A menção de “trombeta” (σάλπιγξ) não pressupõe aqui a realidade de um som literal ouvido na Terra toda. O ressuscitado Jesus Cristo apresentou-se ao apóstolo João na ilha de Patmos com “forte voz, semelhante à duma trombeta”, mas isso não foi percebido no mundo todo, nem mesmo a outros que pudessem estar com João na ilha de Patmos. (Re 1:10) Nos tempos bíblicos,  a trombeta era um instrumento usado para dar toques para convocação de pessoas. (Núm 10:3-7) Portanto, no contexto de 1 Tessalonicenses capítulo 4, significa a convocação dos “mortos em união com Cristo” pela ressurreição.  – 1Co 15:51, 52.
Mateus 24:23-27 também não argumenta a favor de uma presença visível. A comparação é com relação ao alcance ou abrangência da presença invisível de Cristo e não com claridade. Podemos notar isso pelo contraste feito com os falsos cristos. No caso deles usam-se os advérbios “aqui” e “ali”, mostrando que a influência deles é apenas local, restrita. Jesus, na sua presença, não estaria nem aqui nem ali, nem em qualquer lugar específico na Terra, o que mostra que Jesus não viria com corpo e forma humanos. Não estaria num lugar isolado, “no deserto”, um lugar em que os seguidores dele pudessem treinar sob a sua liderança, preparando um golpe político e empossando-o como Governante messiânico do mundo. Tampouco se ocultaria em “aposentos interiores”, para poder conspirar e elaborar planos secretos com cúmplices para derrubar os governos do mundo e ser ungido como o prometido Messias. Uma vez que o reinado de Jesus inclui a Terra toda, sua presença é global. Jesus mostrou que sua presença não seria mantida em sigilo. Não haveria nada a esconder quanto a Jesus estar atuando como Rei, no começo da sua presença régia. Conforme Jesus predisse, lampejos da verdade bíblica continuam a raiar sobre grandes regiões em todo o globo, do Oriente ao Ocidente. Portanto, Jesus indica que da mesma forma como o relâmpago abrange uma vasta área, a evidência de sua presença no poder do Reino será claramente discernível a todos os que desejam observá-la. Com relação ao verbo “brilhar” (φαίνεται [faínetai] derivado de φαίνω [faíno]), tem também o sentido de algo que é discernido, como mostra o parágrafo abaixo. Mas a ênfase não está no ‘brilho’ ou clarão do relâmpago, e sim no espaço abrangente que ele percorre, em contraste com a localização limitada e restrita dos falsos cristos.
Que dizer da manifestação, ou epifania, de Cristo? Essa palavra ocorre em 2 Tessalonicenses 2:8; 1 Timóteo 6:14; 2 Timóteo 1:10; 4:1, 8; Tito 2:13.  A palavra ἐπιφάνεια (epifáneia) significa uma exposição, ou evidência discernível. Ela está relacionada com o verbo ἐπιφαίνω (epifaíno), que ocorre 4 vezes, 2 das quais no sentido de algo tornar-se discernível. (Lu 1:79;Tit 2:11; 3:4) Epifaíno é derivado de φαίνω (faíno) que significa “brilhar, iluminar, aparecer, ser ou tornar-se visível, ser revelado”. (G. D.) Também tem o sentido figurado de tornar-se discernível à mente. (Ro 7:13; Mr 14:64) Outro verbo relacionado é φανερόω (faneróo), que significa “revelar, mostrar, fazer conhecido” (G.D.), também ‘manifestar, tornar manifesto ou patente, fazer sentir, descobrir’. (Taylor) Aplica-se também a coisas abstratas sendo manifestadas: “o segredo sagrado” (Col 1:26), “a justiça de Deus” (Ro 3:21), o “nome” de Deus (Jo 17:6), “os conselhos dos corações” (1 Co 4:5), os “justos decretos” de Deus (Re 15:4). Destas palavras se origina a palavra “fenômeno”, que é definida como “tudo o que é percebido pelos sentidos ou pela consciência”. (Aurélio; grifo acrescentado) O que é percebido pela consciência é algo discernível pela mente.[1]
Cristo já teve sua manifestação visível quando veio como humano na Terra, e esta manifestação ocorreu “uma vez para sempre” (He 9:26), ou seja, ele nunca mais terá uma manifestação visível, visto que hoje Jesus não é mais humano, mas uma poderosa pessoa espiritual no céu.

NÃO VOLTARÁ LITERALMENTE À TERRA

     A Bíblia documenta que Cristo iria ao céu “assegurar-se poder régio e [depois] voltar”. (Lu 19:11-15, 27; ὑποστρέψαι [hipostrépsai], de ὑποστρέφω [hipostréfo] = retornar, voltar.) No entanto, sua vinda ou volta não significa uma movimento topográfico do céu espiritual em direção à atmosfera terrestre.
      A Bíblia fala duma vinda conjunta tanto de Jeová como de Jesus Cristo. (Lu 9:26; Mal 3:1; Jo 8:29; Is 26:21; 40:10; Re 6:16) Jeová não virá literalmente à atmosfera do planeta Terra. Sobre ele, a Bíblia diz: “Os próprios céus, sim, o céu dos céus, não te podem conter”. (1Rs 8:27) Se nem o Universo físico pode comportar a presença de Jeová em pessoa, muito menos nosso minúsculo planeta! Outro fator a considerar é que Cristo fala de “vir” mesmo antes do tempo do fim, no sentido de voltar sua atenção para uma determinada situação. Revelação 2:5, 16 fala de Jesus ‘vir’ à “congregação em Éfeso” para resolver problemas existentes naquela congregação da Ásia Menor. É evidente que ele não faria isso de modo visível nem se deslocaria de sua posição no céu para fazer isso. – Sal 110:1; He 10:13.
Então, qual é o sentido de 1 Tessalonicenses 4:16, que declara que “o próprio Senhor descerá do céu”? Desde sua ressurreição e ascensão ao céu, Cristo é “o reflexo da glória [de Deus] e a representação exata do seu próprio ser.” (He 1:3) Por exemplo, as Escrituras falam frequentemente de Deus descer à Terra para fazer uma inspeção, como por ocasião da construção da torre de Babel, ou para observar o que as pessoas de Sodoma e Gomorra estavam fazendo. (Gn 11:5-7; 18:21; Êx 19:10, 11; Is 31:4; Miq 1:3; 2Sa 22:10) Lemos também que ele ‘visitou’ seu povo Israel e observou a aflição deles enquanto estavam em escravidão no Egito. “Descer”, “visitar” e “vir” estão relacionados. (Êx 3:8, 16; 4:31; Sal 59:5; 80:14; Os 6:3 [“virá”, Al, IBB; “descerá”, ALA]; 10:12 [“ele venha”, ALA]; Lam 1:22; 4:22 [‘visitar’, Als].) Mas, acha que era preciso que Jeová Deus realmente deixasse seu trono celestial para fazer uma inspeção ou para tomar ação? De forma alguma! Antes, ele observou, fixou a sua atenção nas coisas da Terra e agiu. – Jó 7:18, 19.
De modo correspondente, nas Escrituras Gregas Cristãs, fala-se de Deus “visitar” no sentido de voltar a sua atenção. Por isso, quando lemos, em Atos 15:14, que “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome” (Al), significa simplesmente que voltou a sua atenção para os gentios. (NM) A tradução An American Translation traduz por dizer que “Deus, pela primeira vez, mostrou interesse”. Outras traduções dizem: “começou a olhar para” (CBC); “cuidou de” (Ne; So); ou como diz a Tradução do Novo Mundo: “Deus, pela primeira vez, voltou a sua atenção para as nações, a fim de tirar delas um povo para o seu nome.” A palavra episképtomai (ἐπισκέπτομαι)  significa literalmente “visitar”. (Mt 25:36; At 7:23; 15:36) Uma vez que está relacionada com epískopos (superintendente), espiskopéo (cuidar de, providenciar, suprir) e espiskopé (visitação para inspecionar), episképtomai tem o sentido de visitar para cuidar de, ou para dar atenção à pessoa ou às pessoas visitadas. E, quando usada com relação a Deus, tem o sentido de “voltar a atenção”. (É declinada na forma epesképsato [ἐπεσκέψατοem Lucas  1:68; 7:16; Atos 15:14.)  
Correspondentemente, a Bíblia usa a palavra “retornar” no sentido de voltar a atenção, produzindo uma mudança de condição, sem envolver um movimento geográfico. (Mal 3:7; Gn 18:14; Jó 33:25; 1Sa 30:12 [“voltou-lhe o ânimo”, IBB]; Mt 23:35.) O Dicionário Aurélio define tal palavra nesta acepção como “ocupar-se ou tratar de novo dum assunto”. Este é o sentido da expressão “voltar ao assunto”. Tem também o sentido de aplicar, dirigir ou encaminhar esforços num determinado assunto ou problema: “voltar o pensamento para determinada situação”. É interessante que Lucas 15:17 usa a expressão “caiu em si”, que literalmente é ‘veio em si’, sendo que a palavra “veio” (élthon) é particípio aoristo de érkhomai. João 18:4 fala das ‘coisas que haviam de vir [erkhómena] sobre Jesus’. – Al, ALA.
Epistréfo (ἐπιστρέφω) em grego significa “voltar”, e tem sentido tanto literal como figurado. Neste último, significa uma mudança de condição ou atitude. (Lu 1:16; Tg 5:20) A palavra epistrofé (ἐπιστροφή) ”retorno” em grego – é usada em Atos 15:3 no sentido de “conversão”. (Als) Um verbo relacionado, stréfo (στρέφω), que também significa “voltar”, é igualmente usado no sentido figurado. Atos 7:39 fala sobre os israelitas que saíram do Egito e estavam no ermo: “Nos seus corações voltaram-se [ἐστράφησαν; stráfesan] para o Egito.” Não voltaram literalmente ao Egito, mas no coração. Quer dizer, voltaram todos os seus interesses, objetivos e aspirações em direção ao Egito. (Veja também Mateus 18:3; e João 12:40, que usam stréfo no sentido de “mudar interiormente, ser convertido”, G. D.; Gingrich e Danker citam Jo 12:40 tanto sob o verbete epistréfo como sob o verbete stréfo, mostrando que tais verbos significam basicamente a mesma coisa.) De fato, a Bíblia usa diversas expressões figuradas que não sugerem um movimento geográfico. Por exemplo, ela exorta a não se “desviar” das leis de Deus (De 17:11); fala do ‘coração voltar atrás’  (1Rs 18:37); ‘fazer um recuo’ (“convertei-vos”, Als; Ez 18:32); de ‘ser enviado’ sem sair do lugar (1Rs 14:6, Al, IBB; ALA: “estou encarregado”); do coração ‘ir com’ alguém sem que a pessoa saia do lugar (2Rs 5:26); de Deus ‘lançar o proceder’ do iníquo sobre a cabeça do próprio iníquo (2Cr 6:23, Al; ALA, IBB: “fazendo recair”); de Deus ‘lançar para longe de diante da sua face o Templo no sentido de repudiá-lo ou desprezá-lo. – 2Cr 7:20.
Outro fator a considerar é que Cristo prometeu estar com seus verdadeiros seguidores “todos os dias, até à terminação do sistema de coisas”. (Mt 28:20) Uma vez que Jesus Cristo já está conosco, como poderia ele ainda vir até nós? Jesus está ‘conosco’ em especial mediante a orientação dos anjos e a proteção na obra de pregação, porque os versículos anteriores falam da comissão que Jesus deu a seus seguidores de ‘fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os’. (Mt 28:19, 20) Assim como estar ele conosco não implica em sua presença corpórea ao nosso lado, do mesmo modo sua vinda não significa deixar seu domínio celestial para descer ao redor de nosso planeta.
Assim, Cristo estaria ativo qual Rei e “presente” no sentido de voltar sua atenção para a Terra e exercer poder régio para com ela. Cristo não volta em pessoa à vizinhança da Terra (nem mesmo invisivelmente), mas volta a sua atenção à Terra como Rei reinante. Jesus não precisa deixar o céu e vir literalmente à Terra para realizar o propósito de Deus. Mesmo quando na Terra, Jesus Cristo conseguia curar pessoas à distância, como se estivesse pessoalmente presente no local. — Mt 8:5-13; Jo 4:46-53.

EVENTOS DURANTE A PRESENÇA DE CRISTO

A presença do Messias começa com um evento que cumpre um tema frequente das profecias messiânicas: ele é coroado Rei no céu. O próprio Jesus mostrou que a sua presença teria ligação com o seu reinado. Em várias ilustrações, ele se assemelhou a um amo que deixa sua casa e seus escravos e parte para uma longa ausência num “país distante” onde recebe “poder régio”. Jesus fez uma dessas ilustrações como parte de sua resposta à pergunta de seus apóstolos sobre quando começaria a sua pa·rou·sí·a; outra ele fez porque “estavam imaginando que o reino de Deus ia apresentar-se instantaneamente”. – Lu 19:11, 12, 15; Mt 24:3; 25:14, 19.
A revista A Sentinela, de 1.º de outubro de 1992 (pp. 17-18, §§ 11-13), tece o seguinte comentário perspicaz:
Alguns se perguntam, porém: ‘Por que tanta tribulação no mundo se o Messias está reinando no céu? É ineficaz o seu governo?’ Uma ilustração talvez ajude. Digamos que um país esteja sendo governado por um mau presidente. Ele estabeleceu um sistema de corrupção com ramificações em todo o país. Mas, realiza-se uma eleição; um homem bom vence. O que acontecerá então? Como se dá em certos países democráticos, há um período de transição de alguns meses antes da posse do novo presidente. Como agiriam esses dois homens durante tal período? Será que o homem bom imediatamente atacaria e eliminaria todos os males que seu antecessor causou em todo o país? Em vez disso, não se concentraria primeiro na capital, formando um novo gabinete e rompendo relações com os auxiliares e comparsas corruptos do ex-presidente? Assim, ao assumir a plena autoridade, ele pode operar a partir de uma cadeira de comando limpa e eficiente. Quanto ao presidente corrupto, não se aproveitaria ele do curto período restante para arrancar do país o máximo possível de ganhos ilícitos antes de deixar o poder?
Re 12:7-12 mostra que quando Cristo foi coroado Rei no céu, ele primeiro expulsou Satanás e os demônios de lá, limpando assim o local de seu governo. Tendo sofrido essa há muito aguardada derrota, como age Satanás no “curto período de tempo” antes de Cristo exercer sua plena autoridade aqui na Terra? Como o presidente corrupto, ele tenta extorquir tudo o que pode deste velho sistema. Não está atrás de dinheiro; está atrás de vidas humanas. Deseja alienar de Jeová e de Seu Rei reinante tantas pessoas quantas puder. 
Portanto, não é de admirar que o começo do governo do Messias signifique um tempo de “ai da terra”. (Re 12:12) Similarmente, o Sal 110:1, 2, 6 mostra que o Messias começa seu domínio ‘no meio de seus inimigos’. Só mais tarde fará com que “as nações”, junto com todas as facetas do sistema corrupto de Satanás, sejam totalmente relegadas ao esquecimento!
Por décadas, Jesus vem cumprindo Isaías 11:10: “Naquele dia terá de acontecer que haverá a raiz de Jessé posta de pé qual sinal de aviso para os povos. A ele é que irão consultar as nações, e seu lugar de descanso terá de tornar-se glorioso.” Pessoas de todas as nações estão se voltando para o Messias. Por quê? Porque desde que começou a reinar, ele está ‘posto de pé qual sinal’. Tem tornado conhecida a sua presença no mundo todo por meio de um vasto programa educacional ministrado pelas Testemunhas de Jeová. De fato, Jesus predisse que uma obra de pregação global seria um sinal destacado de sua presença antes do fim deste velho sistema. — Mt 24:14.
Lucas 17:31-37 fala de pessoas serem ‘levadas junto’ para a salvação na vinda de Cristo. Ser “levado junto” não significa necessariamente ir para o céu. O verbo grego παραλαμβάνω (paralambáno), que significa “tomar (para si mesmo)”, “tomar consigo”, “receber”, é também usado em sentido figurado, no sentido de “tomar (para si mesmo)” coisas abstratas como “tradições”, instruções, o “ministério” cristão, e o “reino” de Deus. (Mr 7:4; 1Co 11:23; Col 4:17; He 12:28) Instruções podem ser ‘tomadas para si’ ou ‘levadas junto’ no sentido de serem assimiladas na mente e aceitas no coração. ‘Tomar para si’ o Reino não pode ser literal. Afinal, não é o Reino que será trazido até a pessoa, mas a pessoa é que será levada até o Reino, que é celestial. Logo, a pessoa só pode “tomar (para si mesmo)”, “tomar consigo”, ou “receber” o Reino por aceitar o papel que irá desempenhar no Reino de Deus. Vimos assim que paralambáno não tem um sentido restrito de um movimento geográfico em direção a uma pessoa ou coisa, e sim também um sentido de aceitação mental. De modo que os ‘levados junto’ são os que são aceitos por Cristo como sendo dignos de serem preservados com vida quando ele vier para executar os iníquos.
Estas pessoas são as que têm vista espiritual aguda, semelhantes às águias, que se ajuntam àquele de quem discernem ser o Messias, para o banquete espiritual que Jeová provê no seu lugar de segurança. Ajuntam-se às congregações de Deus na terra, sob o Seu verdadeiro Messias. Os ‘abandonados’ são os que não se mantêm espiritualmente despertos e que, consequentemente, são absorvidos pelo modo de vida egoísta, assim como as pessoas nos dias de Noé. Tais são ‘abandonados’ à destruição junto com o sistema mundial de coisas no qual estão envolvidos.
Resumindo: a parousía de Cristo significa a sua “presença” como Rei do Reino de Deus, e abrange um período de tempo desde a sua entronização – período este caracterizado como “terminação do sistema de coisas” (“tempo do fim”) e “últimos dias”. (Da 7:13, 14; Mt 24:3; Da 12:4; 2Ti 3:1) A parousía (presença) de Cristo é invisível aos olhos literais, mas é discernida com os ‘olhos do entendimento’. (Ef 1:18, ACRF) Não significa um retorno literal de Cristo à Terra, mas sim que ele ‘volta sua atenção’ – ou passa a agir – como Rei reinante, dirigindo a maior campanha de evangelização das boas novas do Reino de Deus de todos os tempos! (Mt 24:14) Você está se beneficiando dessa campanha educacional que salva vidas? Poderá fazer isso por aceitar um estudo bíblico gratuito providenciado pelas Testemunhas de Jeová e viver à altura das normas da Bíblia.  – Jo 17:3.

Abreviaturas usadas neste artigo:

Al – Almeida Revista e Corrigida.
ALA – Almeida Atualizada.
Als – Almeida Revista e Corrigida, Almeida Atualizada e Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
BLH – Bíblia na Linguagem de Hoje.
G. D. – Léxico do Novo Testamento Grego/Português de Gingrich e Danker, ed. 1993.
IBB – Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
NM – Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


Referências:

Revista A Sentinela de 1.º de outubro de 1992, pp. 14-19 (publicada pelas Testemunhas de Jeová), sob o tema: “A presença do Messias e seu governo.”


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[1] Veja o artigo, neste blog, intitulado “A ‘manifestação’ de Cristo indica um retorno visível?”, no link http://oapologistadaverdade.blogspot.com.br/2012/07/a-manifestacao-de-cristo-indica-um.html